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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

SARAMAGO

Eu disse que não voltaria às estórias da Bíblia, porém, resolvi ler o último livro – Caim – de José Saramago, escritor português, prêmio Nobel de Literatura em 1998, que completa 88 anos em 2010.
Coincidência incrível, minhas “Estórias da Bíblia” junto a outros eventos inacreditáveis estão no novo livro de Saramago com ainda maior sarcasmo. Saramago faz o seu Caim presenciar os desatinos bíblicos e faz dele um crítico mordaz do Deus do Antigo Testamento.
Caim sofre com o extermínio de homens, mulheres e crianças de Sodoma, Gomorra, Jericó, Madian e da dolorida Ai. Tudo pela vontade de Deus. Sofre também com outros desígnios divinos como a estória de Jó e se diverte com as estórias de Lot e de Noé.
Em português de Portugal e com seu estilo literário inconfundível e complicado apenas para aqueles não iniciados em Saramago – com imensos parágrafos e prolongados períodos repletos de vírgulas, nenhum ponto de interrogação e maiúsculas no meio das frases – o autor narra, com refinado humor, como foi que Caim evitou que Isaac virasse churrasco.
Caim quase dormia na encosta do morro quando uma voz juvenil o despertou:
Ó pai, chamou o moço, e logo outra voz de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há-de prover, o senhor há-de encontrar a vítima para o sacrifício. E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. Chegando ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe-se e peça perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac.
Saramago diz que o verdadeiro anjo teve um problema mecânico na asa direita e chegou atrasado ao salvamento de Isaac.
Como veem, estou muito bem acompanhado em minhas críticas ao que Saramago chama de Livro dos Disparates.

3 comentários:

Fábio disse...

Faz um favor: troca o teu vermelho pelo azul escuro. Se é para diferenciar do preto, vai bastar. Ou usa o itálico, que também desconecta do resto. Mas não vai me fazer correr à Dra. Gilvanete - oftalmologista confiável - outra vez, gastar dinheiro de consulta, pra ela dizer: "nada!"

LACERDA disse...

Tá lá o que você queria. O BC não paga mais as suas consultas médicas?

Fábio disse...

Quando o cara toma um porre e vai parar no posto de saúde, quem está pagando a glicose, o governo ou ele mesmo?