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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

GREGÓRIO DE MATOS

Creio que Fernando Pessoa sempre será o maior poeta da língua portuguesa. Pelo menos, creio que não terei a chance de conhecer outro que o supere. Cerca de trezentos anos antes dele, porém, viveu no Brasil Colônia o maior poeta satírico do nosso idioma.
Gregório de Matos e Guerra – o Boca do Inferno – nasceu rico na Bahia em 1623 ou, talvez, em 1636. O apelido foi devido às críticas que fazia à Igreja Católica. Seus versos também serviram para criticar a política e os governos da época.
Estudou na Universidade de Coimbra onde formou-se em Direito. Foi nomeado juiz e procurador da Bahia em Portugal. Depois é nomeado Desembargador da Relação Esclesiástica da Bahia. Foi magistrado de renome, tornou-se clérigo e foi nomeado Tesoureiro-Mor da Sé.
Foi destituído de seus cargos eclesiásticos por se recusar a usar batina e não acatar a imposição das ordens superiores. Nessa época, surge o poeta satírico, o cronista dos costumes da sociedade baiana, ridicularizando impiedosamente as autoridades civis e religiosas. É denunciado à inquisição, em Lisboa, por seus hábitos não cristãos. Devido a ameaças de morte, foi enviado à força para Angola sem direito de voltar para a Bahia.
Um de seus poemas mais famosos – Epílogos – é reproduzido a seguir. Notem que ele escrevia com conhecimento de causa. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

Que falta nesta cidade?.................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha.........Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?............Ambição
E o maior desta loucura?............. Usura.
Notável desventura
de um povo néscio e sandeu,
que não sabe que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.
Quais são os seus doces objetos?......Pretos
Tem outros bens mais maciços?.......Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?....Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
Quem faz os círios mesquinhos?.....Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?..........Guardas
Quem as tem nos aposentos?...........Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.
E que justiça a resguarda?..............Bastarda
É grátis distribuída?........................Vendida
Que tem, que a todos assusta?........Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.
Que vai pela clerezia?.....................Simonia
E pelos membros da Igreja?............Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?......Unha.
Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.
E nos frades há manqueiras?.........Freiras
Em que ocupam os serões?.............Sermões
Não se ocupam em disputas?.........Putas.
Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões e Putas.
O açúcar já se acabou?.................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?...........Subiu
Logo já convalesceu?...................Morreu.
À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu e Morreu.
A Câmara não acode?.................Não pode
Pois não tem todo o poder?.........Não quer
É que o governo a convence?......Não vence.
Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

3 comentários:

leila castro disse...

Lacerda,

Concordo que Fernando Pessoa é imbatível e atualíssimo, pois seus poemas são atemporais.
Penso que foi o melhor ortônimo que já tive conhecimento.

Encantei-me com Fernando Pessoa quando meu avô dizia que também tinha heterônimos em sua vida, tais como Fernando Pessoa.

Quando guria, tive o prazer de ler as poesias das várias criaturas que o habitavam. Tudo isto para entender também os diversos nomes de meu avô em suas publicações.

Quanto a Gregório de Matos, pouco pude ter contato quando estudante, pois era tempo de ditadura militar e nesta época, Gregório de Matos não era bem vindo nas aulas de literatura.

Mas, como tudo era possível naqueles tempos duros, tive um professor de história que nos apresentou a Gregório de Matos no contexto histórico. E foi interessante este contato para que eu começasse a me interessar pelos detalhes do ser humano em vivências extremas.

Vou tentar explicar como foi isto.
Quando Gregório de Matos foi enviado para Angola, ficou muito abalado (como todo exilado) e seu "eu" se transforma profundamente. Ficou um tanto cagão e sua ironia e sátiras ficaram esmagadas, escondidas entre as pernas.
Em Luanda, estava acontecendo uma crise econômica, com revoltas e motins dos soldados portugueses sediados por lá.
Ele que já estava cagado, negociou a pacificação, acalmou o motim, e como prêmio volta para o Brasil. Ficou por Angola somente um ano.
E como todo cidadão que se arrega, seu prêmio foi parcial e ele não pode voltar para Bahia. Foi para o Recife e lá morreu.

Sua contribuição a literatura foi ser um dos precursores de uma forma literária "brasileira", traduzindo o português da Europa, para o nosso linguajar. Suas questões não foram tão grandiosas e nem eram voltadas a política. E como todo ser humano, envolveu-se em paixões pequenas, religiosas e mundanas. Mal comparando, era o Juca Chaves da época.
Seu envolvimento não era político, nem abraçou uma causa. Abraçou as mulatas, perdeu-se na boemia, e cagou-se diante de Deus em seus poemas religiosos.
Assim seu maior legado, no meu entender, foi a constatação de que todos são capazes de "peidar quando se aperta".

LACERDA disse...

Seu exílio em Angola foi devido à ameaça de morte que recebeu dos filhos do governador da Bahia que, embora sendo seu amigo, ele combateu com veemência em diversos poemas.
Por ser amigo dele, o governador o expulsou da colônia para que ele não fosse assassinado.
Gregório não foi um covarde como você sugere. Foi um corajoso combatente político como Epílogos comprova. Nestes versos, Gregório combate com absoluto sarcarmo o governo da época, a igreja, a sociedade escravagista, os senhores feudais, o judiciário e o legislativo, além das forças de repressão.
E assinava embaixo de suas críticas, sem anonimidade, sem pseudônimos ou heterônimos.
Você pisou na bola ao comparar a poesia mordaz e corrosiva de Gregório de Matos com a galhofa divertida e inconseguente de Juca Chaves.

leila castro disse...

Lacerda,
Você só encontra esta verdade em Epílogos e assim mesmo, isto não é político na concepção de combate a um governo.
Quanto a assinar seus textos, não é demonstração de coragem, talvez seja egocentrismo.
E nem tudo que se diz ser de Gregório de Matos, realmente o é.
Ele satirizava e nada mais.
Quanto a "medrar", também é fato e não disse que era um covarde, minha concepção é de que foi um sobrevivente como tantos outros que escondem ou abafam suas convicções diante de arbitrariedades e sufocos.
E convenhamos que a diferença entre galhofa divertida e sátira mordaz, está situada em uma linha tênue de interpretação.
Continuo com a idéia de que sua contribuição foi introduzir a adaptação tropical da língua portuguesa a literatura.
Esqueci de citar sua participação em cantorias e ritmos afros, precursores de ritmos bem brasileiros.