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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

MINHA APOSENTADORIA

Quase todos nós sonhamos com a aposentadoria.
Mesmo aqueles que nunca pegaram no pesado, nem contribuíram com qualquer merreca para a previdência social, sonham com o dia em que farão jus a um salário mensal sem ter que fazer nada em troca.
Entre esses, muitos tentam aplicar um golpe no INPS para realizar o seu sonho. Alguns até conseguem.
Em compensação, meu pai contribuiu a vida inteira, faleceu antes de se aposentar e não pôde nem deixar pensão para ninguém. Assim como milhões de mulheres que contribuíram durante mais de dez anos e sonhavam apenas com o casamento. Casaram, largaram o emprego e a previdência ficou com a grana.
Há, porém, alguns que não sonham com a aposentadoria. Pensam que se pararem de trabalhar vão perecer na inutilidade.
Não sabem como é bom ser inútil. Não saber que horas são nem que dia é hoje. Ler, computar, escrever, comer, beber, dormir, sem ter que dar satisfação a ninguém.
É o autêntico livre-arbítrio, afinal. Fazer o que quiser, é como estar no mundo a passeio. E todo mês aquele troco na conta-corrente. E ainda ter direito ao décimo-terceiro.
Eu contribuí, durante muito tempo, sobre 20 salários. Depois, a lei baixou a contribuição máxima e passei a pagar sobre dez. Quando via aquele desconto no meu salário, todos os meses, durante 30 anos, sonhava com o dia em que receberia tudo de volta.
Hoje, 31 anos depois de aposentado, ao contrário de meu pai, vejo que já recebi triplicado tudo que me descontaram. E, dentro da lei, sou mais prejudicial ao INSS do que a grande maioria dos fraudadores.
O meu sonho de aposentadoria se realizou. Sou um inútil e orgulhoso vagabundo. Sou pago para não fazer nada. A não ser trocar lâmpadas, ir ao mercado, dirigir para minha mulher, pegar coisas onde ela não alcança e outras coisinhas sem importância. Quando ela me pede algo mais complicado, deixo para fazer somente nos feriados.
Sábados e domingos, eu tiro para descansar. E continuo vivo.
Como castigo, porém, tenho outros sonhos de aposentadoria. São, na verdade, pesadelos terríveis.
Quase todas as noites, sonho que estou trabalhando. Dou um duro danado a madrugada inteira e nada dá certo no que faço. Às vezes, carrego um carrinho de mão cheio de pedras pra lugar nenhum e nunca chego lá.
Acordo revoltado, cansado e nada nem ninguém consegue me desviar da mais completa inutilidade.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

PRESS RELEASES

No meu tempo, era difícil plantar uma "notícia" nos jornais.
Enviávamos “press releases” quase que diariamente para todos e quase que implorávamos para, em raras ocasiões, conseguir uma publicação com pouquíssimas palavras nas colunas sociais.
Apesar de bons anunciantes, tínhamos que nos contentar com publicações em jornais de bairros ou do interior.  
E olha que naquele tempo tínhamos, além de O Globo, A Noite, Correio da ManhãDiário de Notícias, Diário Carioca, O Jornal, Diário da Noite, Última Hora, Jornal do Brasil, Folha Carioca, A Notícia, O Dia, Luta Democrática, Tribuna da Imprensa, Gazeta de Notícias, e outros que nem lembro mais.
Com tantos periódicos, matutinos ou vespertinos, disputando os leitores, a imprensa tinha muito mais seriedade e credibilidade do que atualmente.
O jornalismo respeitava os leitores e não costumava publicar as falsas notícias. Só mesmo os políticos, que nomeavam jornalistas em seus gabinetes, conseguiam furar a barreira contra o que era irrelevante.
Hoje, eu vejo como é fácil a publicação de “releases” preparados pelas assessorias de imprensa de artistas, de jogadores de futebol, de lutadores do UFC e de políticos.
Eles se tornam destaques diários nas páginas online e nos jornais impressos. E os leitores os consomem como se notícias fossem.
Extra e O Dia são especialistas na publicação de “releases”, geralmente notícias absolutamente irrelevantes, a maioria sobre ilustres desconhecidos. 

É interminável a relação de “releases” publicados como se interessassem a alguém medianamente racional.
Até O Globo, com todo o seu aparato jornalístico, utiliza esse artifício para preencher suas páginas. Além de se vender para os grandes empresários, publica notícias absolutamente irrelevantes também publicadas em outras folhas.
Afinal, preencher toda noite aquelas folhas em branco é como cumprir a maldição imposta a Sísifo. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

80 ANOS

Acordei hoje pensando que tudo posso na idade que me fortalece. Levantei sem nada sentir. Nada que seja obrigatório um octogenário sentir. 
Chegar ao 80 anos é uma extravagância. Não considero excessivo, mas extravagante sim. Ainda mais assim saudável como eu.
Há muito que ultrapassei o prazo de validade de um brasileiro comum, mas continuo sedentário, fumando, comendo e bebendo de tudo.
Sou agora um mandrião convicto, vagabundo como sempre quis ser quando crescesse, e preguiçoso como um Macunaíma branco, mas com algum caráter.
Sou um elemento nocivo para as finanças do INSS. Tornei-me, também, um gozador irreverente, sarcástico e, muitas vezes, mal compreendido. Há até quem diga que sou um ser humano quase desagradável.
Eu diria quase humano também.
Vim do nada e cheguei a lugar nenhum, mas sempre saudável. E, aos 80 anos, repito, eu tudo posso na idade que me fortalece. 
Sou feliz e, talvez por isso, jamais fiz o discurso radical e negativista neste humilde blog. Aqui podem-se encontrar apenas críticas duras, implacáveis, eventualmente até injustas, talvez, mas sempre com fundamentos racionais. Nada que seja escrito com má fé. Apenas a minha opinião.
Sigo de bem com a vida, como sempre. Filhos bem formados, netos no bom caminho, mulher bonita e sempre com algum no banco e no bolso.
Bem resolvido e sempre com a amizade do Cara Todo-Poderoso Que Se amarra em mim.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

PRESENTE PARA O PAI

Meu filho perguntou à mãe que presente daria ao pai neste domingo e no anivesário dele na quarta-feira.
Nenhum, disse eu. Que presente poderia querer um pai que tem tudo e que fará 80 anos?
Depois, lembrei do presente recebido no Dia dos Pais de 2010. Acho que foi o melhor presente já recebido e foi bem aqui no blog.
Foi a sua resposta a um anônimo cretino que me acusou de falso e preconceituoso em um comentário. Como ninguém me conhece melhor que meu filho, resultado da convivência constante durante mais de 38 anos, ele se ofendeu e respondeu.

“Anônimo, meu caro, tens razão. Meu pai dá vazão a todos os seus defeitos aqui neste blog. Como diria uma amiga minha, entregar-se a um blog é como ficar pelado em plena Av. Rio Branco, se não, não vale a pena tê-lo. 
E ele se expõe. Mostra quem é, o que pensa, onde mora, além de respeitar, publicar e dialogar com as mais diferentes opiniões.
Isso na terra livre da internet, onde as pessoas se escondem no anonimato até pra fazer um simples comentário discordante. Mal sabe você que ele gosta mais das opiniões divergentes. 
Ele realmente não é humilde mas não é soberbo. Parece, mas não é. E preconceituoso muito menos. Suas idéias só podem ser confundidas com preconceito por um idiota, pense nisso.
E, apesar dessa falta de humildade, perturbadora mesmo pra mim, ele é um cara muito simples que conversa por horas a fio com qualquer um, qualquer um mesmo. Ele seria capaz de defender, por exemplo, a democracia com um ditador, ouvindo e rebatendo seus argumentos. Eu não faria isso nunca.
Lá em casa, ele às vezes chegava do exterior, após ter dado uma palestra, e reunia amigos da favela para rodas de samba que duravam todo o fim de semana.
O fato é que todo ser humano tem defeitos às vezes inconfessáveis, e os esconde atrás de um moralismo falso que nem jornal, e sai apontando o dedo pros outros. Difícil é encontrar quem encare de frente e assuma seus próprios defeitos. 
É difícil, para muitos, ter e expressar opiniões sem levar para o lado pessoal. Aqui, ele demonstra exatamente como se faz isso. E quem vê não compreende como isso é possível.
Para lutar por uma posição, para tentar convencer alguém de que isto ou aquilo é certo ou errado, não é preciso brigar com esta pessoa.
Pai, eu sou seu filho e já vi você estender a mão e ajudar com vontade quem me parecia ser seu inimigo. Aos poucos fui compreendendo a diferença.
Também já vi você brigar feio com um amigo da família, vi vocês resolverem as diferenças e logo depois manterem-se amigos até hoje.
Anônimo, concordo com meu pai no fato de que ele dá a cara a bater quando fala publicamente suas opiniões.
Nesta época de Big Brother (o da Globo, não o de Sir Arhtur Blair), é moda taxar os outros de falso ou sincero. Mas para compreender a real diferença é preciso cultura. E talvez isto lhe falte.
Se alguém chamar Lacerda de chato, implicante, até grosso, além de vários outros defeitos, posso vir a concordar, mas falsidade não é um deles. Pelo contrário, um pouco de falsidade lhe faria até bem e pouparia a mim e a minha mãe de algumas chateações.
Assim, lhe agradeço pelas palavras que demonstram exatamente essa grande qualidade que ele tem de conseguir expressar com coragem suas fortes opiniões sem se envolver emocionalmente, sem sentir raiva quando alguém lhe faz algo que desgoste ou lhe faça mal. É uma qualidade que falta a muitos homens e que poderia nos tornar mais pacíficos. 
Em última análise, trata-se de política de verdade. Política de transformar pelo debate franco e não pela guerra.”

Que todos os pais tenham filhos que se orgulhem deles é o que desejo neste próximo Dia dos Pais. E, quem sabe, poderia receber um outro presente como este se é que ele ainda se orgulha do pai que tem.
Valeria, também pelo aniversário de 80 anos.

sábado, 22 de julho de 2017

E DEUS CRIOU A MULHER

Não é apenas o título de um filme francês com Brigitte Bardot, dirigido por Roger Vadim, é também uma verdade absoluta. Talvez a única verdade que a Bíblia – ou melhor, o Antigo Testamento – nos afirma entre aquelas peripécias bíblicas das filhas de Ló, de Isaac e Abrahão, que até mesmo Deus duvida.
Crer naquela loucura que muitos levam a sério, é o mesmo que acreditar na teoria da evolução que Darwin supôs. Que o homem descende do macaco tudo bem, mas a mulher não.
Prefiro acreditar que Deus criou a mulher, esse ser divino e maravilhoso que me encanta e ornamenta o mundo e a vida. 
Ele tinha acabado de criar o tigre e resolveu criar algo ainda mais bonito: e criou a mulher.
Claro que Ele – o Todo-Poderoso –  deixou alguns furos em sua mais bela, suculenta e deliciosa criação.
Por que colocou pentelhos na mulher? Cabelos nas axilas e nas pernas, pra quê?
Podia ter feito a mulher botando ovos como as aves, o jacaré, a tartaruga, e não menstruando todo mês. Porém, mantendo todos aqueles atrativos que a gente já conhece e se acostumou. 
Se a mulher pusesse ovos - ela já não põe óvulos? - quantos problemas não seriam evitados... 
Além da menstruação: o aborto, a gravidez indesejada, a superpopulação mundial, a fome, a TPM, a depressão pós-parto, a menopausa, e, principalmente, a virgindade. A vida seria bem melhor sem camisinha e anticoncepcionais. 
Se o tigre é exatamente igual a tantos outros tigres - quem viu um viu todos - eu não consigo entender por que duas mulheres lindas e maravilhosas conseguem ser tão diferentes uma da outra.
Será porque a beleza da mulher é mesmo algo infinito como o universo?
Então, só mesmo Deus poderia tê-los criado.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

OS DEMIURGOS

Juiz não é deus, afirmou a agente de trânsito Luciana Silva Tamburini – salve ela – que cumpriu seu dever enfrentando a prepotência de um juiz desequilibrado dirigindo, sem carteira, um carro sem placas numa blitz.
Por isso, foi condenada por outro juiz a pagar cinco mil reais ao colega João Carlos de Souza Corrêa.
Foi um ato condenável do juiz em questão, um déspota, casca-grossa e fora-da-lei como tantos outros. Principalmente aqueles que liberam bandidos, humilham policiais e advogados, participam de maracutaias diversas e muito poucas vezes punidas com aposentaria integral, além de se considerarem como um demiurgo acima do bem do mal.
Um juiz como aquele – e tantos outros - se considera uma entidade divina que se situa entre Deus e a humanidade, uma criatura intermediária entre a natureza divina e a humana. Um ser iluminado com poderes sobrenaturais que atua com o aval do além, uma deidade subordinada à Divindade Suprema, um demiurgo.
Foi o filósofo grego Platão (429-347 a.C) quem primeiro identificou e descreveu o demiurgo. Trata-se, na verdade, de um mito, uma hipótese cosmológica com caracteres verossímeis.
Na doutrina de Platão – discípulo de Sócrates - o demiurgo é uma entidade divina que situa-se entre Deus e a humanidade. Algo tipo assim como Buda, como Maomé, como Moisés e, até mesmo, como Jesus.
O Aurélio, afirma tratar-se de uma criatura intermediária entre a natureza divina e a humana.
Atualmente, o termo demiurgo adquiriu também um significado pejorativo, designando pessoas que se imaginam acima do bem e do mal, donas da verdade e que se julgam sempre certas. Uma deidade
arbitrária e arrogante subordinada à Divindade Suprema no pedestal da magistratura.
"Delação da Odebrecht sem pegar o Judiciário não é delação. É impossível levar a sério essa delação caso não mencione um magistrado sequer" - declarou a ex-ministra do Superior Tribunal de Justiça Eliana Calmon.
Somente há corruptos nos poderes executivo e legislativo? O Judiciário é probo, honrado, íntegro, honesto, justo, decente, correto, virtuoso?
Sórdidos e pornográficos, os todo-poderosos juízes com toda a empáfia escancaram a humilhante parcialidade da justiça no contorcionismo jurídico peculiar ao STF, uma moribunda aberração jurídica.
São os donos da verdade, convictos de que tudo podem.
Juiz não é deus, é um demiurgo.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

BOICOTE À REDE GLOBO

Revisitando este meu humilde e sarcástico blog, encontrei esta postagem de janeiro/2013 e decidi reeditá-la.
BOICOTE À REDE GLOBO
Os protestantes fundamentalistas estão assanhados contra a TV Globo devido à novela“Salve Jorge” e à minissérie “O Canto da Sereia”. Propõem boicote à Globo por exaltar as entidades umbandistas Ogum e Yemanjá.
Os “evangélicos” veem mais holofote sobre outras doutrinas. Dizem que os casamentos em novelas são geralmente católicos e que a doutrina espírita é uma constante na programação noveleira.
"Em 25 anos, vin-te e cin-co, lembro de apenas uma reportagem boa na Globo sobre evangélicos. E tem semana em que, todo dia, o 'Jornal Nacional' fala bem da Igreja Católica" –afirmou Silas Malafaia em O Globo  – “E, se há personagens evangélicos, é crente, mas vagabundo. É pastor, mas safado”.
Esses caras, em episódio lamentável de intolerância e radicalização, mais uma vez estimulam o confronto religioso com discursos de ódio e conseguem fazer o que eu imaginava ser impossível, isto é, eu ficar do lado da Globo.
A produção da TV Record enviou à concorrente um questionamento que considerou pertinente: se a Globo pretende exibir uma novela cuja protagonista seja “evangélica”.
Em resposta, a Globo afirmou que sua programação é laica e não segue nenhuma doutrina religiosa. Que os roteiristas são livres para criar.
Poderia também dizer o quanto é difícil criar algo favorável sobre o que é tão sem charme e frustrante quanto os falsos profetas milagrosos das seitas pentecostais. Contra é muito mais fácil, até eu consegui escrever estes versos:
“Simulados milagres em qualquer esquina
Onde um cabeça de bagre vomita doutrina...
É o falso profeta prevendo o passado
E fazendo a coleta, fica endinheirado.
O devoto que paga foi abençoado,
"Curou" sua chaga e expulsou o “danado”...
E onde está a polícia? Cadê solução?
Apelar pra milícia? Chamar o ladrão?”
Já imaginaram uma novela ou minissérie da Globo contando aquelas peripécias bíblicas do Velho Testamento que até mesmo Deus duvida e que eles tanto exaltam?
Tenho uma sugestão: a TV Globo poderia produzir uma minissérie contando a história de Isaac, o filho que Abraão quase degolou e queimou amarrado numa fogueira em holocausto a Deus Que o salvou no último segundo da prorrogação. 
Seria preciso introduzir um personagem que fosse médico psiquiatra para tratar e explicar como a criança conseguiu superar tamanho trauma psicológico: quase virou churrasco, mas cresceu e, assim como seu pai, sempre levava um papo firme com o Todo-Poderoso. Casou-se com a linda Rebeca e foi aplicar em Abimalec o mesmo golpe aplicado por seu pai e sua mãe cerca de 50 anos antes.
Sugiro, ainda, introduzir um núcleo com as filhas de Ló que, carentes de sexo, embebedaram o pai e deitaram com ele. Isto depois de serem salvos de Sodoma e Gomorra. A mãe ficou lá como uma estátua de sal, castigo por ter olhado para trás.

É claro que a Globo teria sérios problemas com a censura.
Agora, falando sério, o que eu quero ver mesmo são esses pastores enfrentarem os bicheiros cariocas que, através das escolas de samba, também colocam holofotes sobre aquelas entidades umbandistas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

SAUDADE, LEMBRANÇAS E FALSAS MEMÓRIAS

Toda saudade traz diferentes lembranças. Às vezes, traz também falsas memórias.
Podem não acreditar, mas lembro dos meus seis meses no colo da minha prima, ela cantando “upa, upa, upa cavalinho alazão” e eu pulando de alegria. Foi meu primeiro carnaval em 1938.
Depois, em 1944, o bloco cantando “olha a cobra fumando” entrou na minha casa e, quando saiu, me levou junto. Meu pai foi me buscar no outro quarteirão. Ainda lembro da bronca que levei.
Lembro da guerra e dos blecautes diários. Havia o medo de bombardeios, tínhamos que ficar trancados em casa e com as luzes apagadas.
Quando sinto saudade dos meus oito anos, lembro das minhas primas que cuidavam de mim. Uma delas pedófila, abusava daquela criança. E como eu gostava...
Quando sinto saudade da minha mui querida mãe, lembro da vara de goiabeira que ela mantinha junto ao fogão. Lembro dela tentando me pegar com a vara na mão; de me acordar toda manhã e de seus gritos chamando-me à noite para voltar pra casa.
Lembro da minha infância. Lembro do zepelin que vi passar vagarosamente em direção à Base Aérea de Santa Cruz e que, depois, adulto, descobri ser uma falsa memória.
Lembro da minha primeira namorada que nunca soube do nosso namoro nem jamais soube o que perdeu. 
Quando sinto saudade do meu pai, lembro de sua estante cheia de livros - com Dostoyéviski,  Émile Zola, Kafka, Máximo Gorki - que eu li todos antes dos 14 anos.
Quando sinto saudade da escola primária, lembro do Professor Valle e sua esposa Lili. Ela ensinava português e ele, comunista, professor de matemática, nos ensinava raiz cúbica. Vejam só: já sabia resolver raiz cúbica no primário. Hoje, não sei mais. Nem raiz quadrada eu sei.
Sinto saudade do ginásio quando passei a estudar na Lapa onde conheci Oswaldo Nunes e Madame Satã, dois homossexuais que apareciam sempre na hora de saída do colégio.
Lembro dos bondes e da primeira vez que saltei de um bonde andando. Claro que rolei no chão.
Lembro que matava aula para ir à praia ou ao Capitólio com as garotas. Tempo bom.
Sinto saudade do trem, na volta pra casa, cheio de normalistas do Instituto de Educação. Até peguei uma pra mim que, depois, me deu um filho. Hoje, ele é coronel da Aeronáutica.
Quando sinto saudade da minha irmã, lembro do Nelson Rodrigues. Ela possuía todos os livros dele, os quais eu li quase todos. E me tornei seu ardoroso fã. Tal como ela.
Quando lembro do meu irmão, penso nas inúmeras vezes que tive de brigar na rua pra defendê-lo.
Agora, beirando os oitenta, todas estas lembranças permanecem vivas. E, quando quero, passo o VT completo em minha mente.
E sinto muita pena de quem sofre com o Mal de Alzheimer.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

MEA CULPA

É isso que tem faltado em nossa sociedade: o "mea culpa". 
É, também, o que já me fez escrever diversas postagens que levaram alguns a pensar que defendo os políticos.
 
O que defendo é que precisamos parar de culpar os políticos por tudo de mal que acontece. Não podemos agir como Goebbels - o ministro da comunicação nazista - que considerava judeus e comunistas culpados pela crise econômica, social e política na Alemanha após a primeira guerra. Deu no que deu, todos sabem.
Já disse aqui que políticos são como fraldas descartáveis, ambos têm que ser sempre trocados, e sempre pelo mesmo motivo. Coisa que não podemos fazer com os juízes, com um Gilmar Mendes, por exemplo.

E como eu não preciso agradar ninguém para obter votos e posso falar o que penso, vou me repetir para dizer que nunca vi tanta canalhice, tanta barbárie, tanta falta de educação, tanta pouca vergonha, tanta estupidez cometida pela nossa sociedade.
Vejo gente da classe média com o segundo grau completo assaltando e formando quadrilhas. Neo-nazistas surrando pessoas inocentes. Crianças agredindo professoras sem sofrer qualquer punição. Grupo de mocinhas atacando covardemente uma colega de turma. Adolescentes fazendo sexo no banheiro da escola e postando o vídeo na internet. Policiais matando, assaltando e liberando assaltantes sem prestar socorro à vítima. Idosos transportando drogas e armas. Crianças de doze anos roubando taxistas. Drogados incendiando suas próprias casas e a dos vizinhos. Promotor público que matou a mulher se entregando após oito anos porque não tinha dinheiro para tratar dos dentes. Mãe matar o filho de oito meses – filho de um pastor - para não perder o namorado novo. Criminosos hediondos liberados por juízes irresponsáveis. Motoristas embriagados deixando jovens em estado vegetativo e sendo liberados. Médico embriagado agredindo paciente dentro do hospital.
 Médica que não quis atender uma criança de um ano e meio, deixando-a morrer porque não era pediatra.  Pai abusando de filhas ainda crianças. Professor transando com aluna adolescente. Professoras do ensino fundamental transando com aluno e até com alunas em motel. Advogado levando celular e drogas para bandidos na cadeia. Vandalismo em biblioteca de faculdades. Enfermeiros aplicando sopa na veia de idosa, café com leite na veia de criança ou dando ácido para ela beber.
Torcidas organizadas matando-se entre si mesmas, cracolândias, maridos e namorados surrando ou matando as esposas e amantes, jovens homofóbicos e adultos pedófilos, etc, etc. Uma mulher é estuprada a cada onze minutos.
E o que é pior: gente medíocre e estúpida defendendo a volta dos militares ao poder. Boçalnatos.
N
em no Velho Testamento vi tanto infortúnio, tanta calamidade. Uma verdadeira degradação moral e aviltamento da vida. Uma absurda ausência de qualquer faculdade moral e intelectual.
Há algum tempo, porém, algo me deixou ainda mais perplexo. O caso do trio de canibais – um homem, sua mulher e a amante – que matava mulheres pra comer as carnes mais nobres. 
Tudo bem, apesar de a mulher não fazer parte da cadeia alimentar masculina, não vou discutir o gosto culinário nem o paladar do infeliz canalha que ia cursar psicologia numa universidade de Pernambuco. A questão primordial e funesta é que aproveitavam a carne de segunda pra fazer salgadinhos que vendiam no bairro.
Chego a pensar que nós, eleitores, somos muito mais canalhas do que o mais infame dos políticos. 
E não venham me falar em desvios de conduta nem no fracasso do sistema escolar. Todos os casos que citei são de criaturas que passaram pelos bancos escolares. Gente que tem o que comer e beber. Principalmente, beber. 
A culpa não é do professor. Nem do governo. Muito menos dos políticos. A culpa é da família, da sociedade em que vivemos, de cada um de nós.
E eu nunca vi ninguém culpar o dentista por nossas próprias cáries.
Será que somente neste caso é que fazem o "mea culpa"?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CORDEL

Revirando meus guardados, descobri uma das minhas incursões, há cerca de uns quarenta anos, pela literatura de cordel, manifestação cultural que eu admiro.
Nesse tempo, eu trabalhava na SmithKline, laboratório que fabricava o produto, e criei o pretenso cordel para incluí-lo num trabalho de grupo na faculdade de comunicação do qual participaram os colegas Kátia do Carmo Elias, Luis de Almeida, Maria Arminda R. Carvalho, Nanci Marinho, Roseli de Jesus Fernandes, Sérgio Gabriel Domingos e Sueli de Souza Barbosa.
Por onde andarão eles? E principalmente elas?

A estória de Severino Capivara e como ele salvou Lampião da morte, enricou o patrão e amigou com a filha do boticário.
Vou contar pro mundaréu,
Brasil, Filadélfia e México,
À maneira do cordel,
Com todo o sabor poético
Do povo do meu sertão,
A estória de Severino -  
Apelido capivara -
Malandro desde menino,
Que um dia deu de cara
Com o bando de Lampião.
                   Dizem, mas eu duvido,
                   Que, dia do nascimento,
                   Logo depois de parido,
                   A mãe jogou seu rebento
                   No rio Jocutuguara.
                   Que depois foi encontrado,
                   Tomando um outro destino,
                   Amamentado e criado
                   Com o nome Severino
                   Por uma gentil capivara.
Era feio como a peste,
A cara bexiga só,
Terrorizava o nordeste
Pras bandas de Mossoró.
Concorrendo com o capeta,
Assustando criancinha,
Atacando muié prenha,
Deixando-as só de calcinha...
Nos machos, baixando a lenha,
Dando uma coça porreta.
                   Um dia, assim num repente,
                   O cabra tomou tenência
                   Quando ele deu pela frente
                   Com moça sem saliência:
                   A filha do boticário.
                   Pra móde ver a menina
                   Foi trabalhar na botica...
                   Deixou sua antiga sina,
                   Mostrava agora as canjicas
                   Parecia mesmo otário.
Estava um dia aperreado,
Vendendo droga a freguês,
Quando se viu rodeado
E atacado por três
Dos cabras de Lampião.
Disse o mais encapetado:
“O chefe tá com espinhela
Caída e com mau olhado,
Tá mais fraco que donzela
De primeira comunhão.
                   Quero um remédio porreta
                   Pra levantá o patrão,
                   Pra livrá ele da morte
                   E daquela abafação
                   Que já num guento seus ai”.
                   Severino foi dizendo:
                   Eu tenho um que é dos bons
                   Que arriba quem está morrendo,
                   Dá pro home dois vidrões
                   De Neuro Fosfato Eskay.
E leva três outros mais:
Quebra um na encruzilhada,
Um outro joga pra trás
Quando por o pé na estrada,
Mas, não se vire pra vê-lo.
Com o terceiro vidrão
Que é bem maior de tamanho
Diga pro seu patrão
Toda vez que tomar banho
Passar sempre no cabelo.
                   Quase um mês se passara
                   E aparece procurando
                   Severino Capivara
                   Lampião com todo o bando
                   De cabras mal encarados.
                   Lampião tava sadio,
                   Forte como um cavalo,
                   Parecia até no cio,
                   Bonito que nem te falo.
                   Cabelos bem penteados.
Foi direto à drogaria...
Lampião lá entrou só,
O bando ficou de espia
Na rua que nem mocó,
Tocaiando a macacada.
“Foi ocê cabra da pesta,
Ocê que quase me mata
Com droga  ruim da molesta
Que fede e tem gosto de lata,
Lata velha enferrujada?”
                   Severino tremeu de medo
                   Quando ouviu ele falar.
                   Perdeu a voz logo cedo
                   Sentiu a calça encharcar
                   E os pés presos no chão.
                   Lampião disse em seguida:
                   “Fique sabendo seu moço,
                   Ocê salvou minha vida.
                   Eu tava só pelo e osso,
                   Morrendo lá no sertão.
“Agora, eu tô bom de vez,
Fiquei inté bem mais forte,
Agüento lutar com seis,
Voltei a zombar da morte
E nunca mais dei um ai.
Vim aqui lhe agradecê
Dizê que lhe quero bem
E pedir pra me vendê
Todo estoque que tem
Daquele fosfato eskay.”
                   Se deu bem o boticário,
                   Vendeu remédio adoidado,
                   Já ficou milionário
                   E inda vem de todo lado
                   Gente pra comprar fosfato.
                   Severino amigou como queria,
                   Nunca mais saiu do trilho,
                   E ainda noutro dia
                   Os dois tiveram um filho

                   Que a mãe jogou no mato.

domingo, 7 de maio de 2017

OS FLATOS

Para mostrar que nosso blog não vive somente de críticas – mas, também é cultura – vamos falar sobre a flatulência.
Vamos informar tudo o que você queria saber sobre a flatulência e não tinha coragem de, nem a quem, perguntar. O peido... bem, vamos chamá-lo de flato (do latim flatus, sopro), embora não sejam a mesma coisa. Há diferenças, mas deixa pra lá porque peido não é palavra que fica muito bem num blog tão requintado.
O flato é uma ventosidade anal que pode ser ruidosa ou não e geralmente tem um cheiro fétido. Não é possível eliminar o fedor. Nem adianta comer alimentos perfumados, mas saiba que quanto mais forte o fedor, mais saudável é a criatura que o expeliu. É verdade, pode pesquisar, está relacionado com a atividade mitocondrial que regula a vida das células. Já até andou circulando na NET, assim como tantas outras teorias absurdas compartilhada por oligofrênicos, que o fedor previne a incidência de câncer.

Tem origem nos gases que são ingeridos juntamente com a comida e, também, dos gases acumulados durante o processo de digestão e na decomposição dos resíduos orgânicos no intestino. Um desses processos é a fermentação de carboidratos por bactérias.
O mau cheiro dos flatos vem do sulfeto de hidrogênio e do enxofre livre na mistura. Quanto mais rica em enxofre for a dieta, mais flatos serão produzidos pelas bactérias no intestino e vão feder mais. Repolho, couve-flor, ovos cozidos, batata doce, são notórios por produzirem flatos fedidos e, muitas vezes, asfixiantes.
Embora sejam geralmente motivo de risos, os flatos são meras reações de processos internos de nosso organismo.
O interessante do mau cheiro flatulento é que não suportamos o alheio e até gostamos do nosso. A ciência ainda não sabe a causa dessa predileção.
O som dos flatos são causados pela vibração da abertura anal. Depende da velocidade na expulsão do gás e do diâmetro da abertura anal. Pelo volume do som, podemos medi-los como traques ou puns. Há também o do tipo metralhadora que é composto de vários flatos diminutos expelidos ininterruptamente. Contudo, a fetidez independe do som produzido.
Em média, uma pessoa pode produzir até 20 flatos diários, nem todos com uma sonoridade audível. Mesmo dormindo, todo ser vivo produz flatos.
Alguns soam como um despertador no meio da madrugada. Outros são capazes de produzir flatos até mesmo horas após a morte. Imagine um defunto peidando...
Mulheres produzem tantos ou mais flatos que os homens. As mulheres se envergonham disso, mas há homens que se orgulham e fazem questão de acionar uma espécie de amplificador anal para que todos ouçam os seus flatos. 
Uma mulher bonita, corpo bem feito, bem vestida, pode soltar à vontade seus flatos, em qualquer situação, pois ninguém nunca desconfia de pessoas com essas características. Desconfiam sempre dos gordos, dos velhos e de pessoas feias. 
O flato não tem nada a ver com o arroto. O arroto vem do estômago e pode vir acompanhado de resíduos estomacais; o flato é oriundo dos intestinos, tem uma diferente composição química e somente pode vir acompanhado de fezes líquidas.
É o chamado flato úmido que é desesperador quando estamos em público. Quem já passou por isso sabe como é triste ter as nádegas umedecidas por dejetos anais. O arroto geralmente tem um cheiro azedo e o flato tem um fedor nauseante característico que varia de pessoa para pessoa.
O cheiro do flato do rico é diferente do fedor do flato do pobre devido à alimentação. Notem que eu estabeleço uma distinção: cheiro do flato do rico e fedor do flato do pobre. Rico vive de dieta e não come – como nós simples mortais - repolho, ovo cozido, caranguejo, sopa de entulho nem prato feito de boteco. E só bebem “perfumarias”, não bebem cachaça.
Os gases que expelimos pelo ânus podem pegar fogo, produzindo chamas azuis e amarelas como as do fogão porque os flatos contêm metano e hidrogênio, facilmente inflamáveis. Mas, não tente fazer isso em casa. É muito perigoso, o fogo pode se introduzir em seu canal retal e causar estragos.
Esses gases que expelimos também são reconhecidamente capazes de destruir a camada de ozônio que protege o planeta e contribuem 20 vezes mais que o dióxido de carbono para o efeito estufa. Mas, você não pode evitá-los. Portanto, não se preocupe com isso, você já tem outros compromissos muito mais importantes com a ecologia.
Você pode, sim, tranquilamente adiar um flato. Você sabe que ele vem vindo, fecha o esfincter anal e ele volta para o intestino, aguardando uma ordem posterior. Você poderá soltá-lo depois em recinto e ocasião apropriados. Evite sempre soltá-los no elevador ou dentro do carro quando acompanhado de namorada nova. Também, pode evitar a sua ressonância controlando o esfincter anal para soltá-lo de mansinho, discretamente. Mas, cuidado, é preciso ter uma técnica profissional para fazê-lo. Já quebrei a cara, certa vez em uma reunião de trabalho, quando pensei que estava no total controle do som e, de repente, foi aquele PUM.
Aí está, portanto, tudo o que eu sei e que você gostaria de saber sobre o peido – ih! falei o nome dele – e não tinha coragem de perguntar. Ia me esquecendo, o Aurélio diz que flatulência também significa vaidade pretensiosa; bazófia, jactância. É, portanto, uma palavra bem adequada para qualificar quem se orgulha de seus peidos estrepitosos.