Cerca de 50 médicos fizeram
um corredor polonês para xingar e vaiar 79 médicos cubanos que saiam de um
curso da Escola de Saúde Pública do Ceará.
"É um imenso preconceito sendo externado contra
os cubanos que vêm ao Brasil trabalhar aonde médicos brasileiros formados aqui
não querem ir”, disse Dilma Rousseff lamentando a postura de médicos
brasileiros vaiando os cubanos, em Fortaleza.
"Foram atitudes truculentas, incitaram o
preconceito e a xenofobia. Eles fizeram um verdadeiro corredor polonês da
xenofobia, atacando médicos que vieram de outros países para atender a
população apenas naqueles municípios onde nenhum profissional quis fazer
atendimento", disse o Ministro da Saúde e futuro governador de São Paulo
Alexandre Padilha.
“Que cena
infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!”
(Castro Alves, em Navio Negreiro)
É verdade, sim. Tanto horror
não é somente loucura, é mais uma pequena mostra da louca estupidez humana a
demonstrar que o grande
acontecimento do século – como disse Nelson Rodrigues - foi a ascensão
espantosa e fulminante dos idiotas. Brancos azedos e preconceituosos formados em
faculdades particulares medíocres, inocentes úteis demonstrando insanidade e vomitando
xenofobia contra um médico negro formado em Cuba. Lá onde estudam e se formam
com distinção médicos de todo o mundo, inclusive brasileiros.
Os
dois filhos do presidente do Sindicato dos Médicos do Estado do Rio Grande do
Sul (Simers) - Paulo de Argollo Mendes, no poder há 15 anos e reeleito para
mais um mandato (2013-2015) – por exemplo, cursaram medicina no Instituto
Superior de Ciências Médicas de Camagüey, em Cuba, entre 1997 e 2004. Naquela
época, ele só tinha elogios para Cuba e a medicina cubana. Hoje, o “banner” no
luxuoso prédio do sindicato, em Porto Alegre, mostra a sua posição atual.
Falando
pelo Simers, diz que “Somos frontalmente
contrários à vinda de médicos estrangeiros, é enganação, pura demagogia. Se um
médico estrangeiro cometer eventual barbaridade, quem vai pagar? É uma
insegurança absoluta para o próprio paciente... São médicos de segunda classe
para tratar pacientes de segunda, porque é assim que o governo enxerga os
pacientes do SUS”.
Trata-se,
portanto, de um preconceituoso, xenófobo e hipócrita como todos aqueles que
vaiaram o médico negro em Fortaleza. Enquanto o hipócrita esbraveja expelindo
seus dejetos mentais, cidades gaúchas na fronteira com o Uruguai enfrentam a
falta de profissionais de saúde contratando médicos do país vizinho sem diploma
revalidado. Municípios e hospitais ganharam na Justiça o direito de contar com
médicos uruguaios e dependem deles para formar equipes mínimas.
Mas,
serão de segunda classe os médicos que estão vindo para o Brasil? Serão seus
pacientes no interior do país brasileiros de segunda classe?
Centenas
de profissionais de saúde cubanos trabalham em 40 centros em todo o Haiti desde
o terremoto de 1998, onde cuidaram de mais de 30 mil casos de cólera nos
últimos 10 meses. É o maior contingente estrangeiro tratando cerca de 40% de
todos os doentes de cólera.
Desde
1998, Cuba treinou 550 médicos haitianos gratuitamente na Escola Latino-Americana
de Medicina (ELAM). Outros 400 estão sendo treinados na escola
que oferece ensino gratuito.
John
Kirk é um professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade Dalhousie, no
Canadá, que pesquisa e avalia equipes médicas internacionais de Cuba. Ele
disse: “A contribuição de Cuba,
como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Eles são pouco
mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado”.
Esta
tradição remonta a 1960, quando Cuba enviou um punhado de médicos para o Chile,
atingido por um forte terremoto; em seguida, em 1963, foi enviada uma equipe de 50 médicos
para a Argélia. Isso foi apenas quatro anos depois da Revolução Cubana.
O
programa mais conhecido é a “Operação Milagre”,
que começou com os oftalmologistas tratando os portadores de catarata em
aldeias pobres venezuelanas em troca de petróleo. Esta iniciativa tem restaurado
a visão de 1,8 milhão de pessoas em 35 países, incluindo a de Mario Terán, o
sargento boliviano que matou Che Guevara em 1967.
Aliás,
será por influência dele – o grande herói cubano, um médico formado na
Argentina - que tantos cubanos se formaram médicos ou se dedicam à medicina sem
o interesse financeiro dos mercenários médicos brasileiros?
A
taxa de mortalidade infantil em Cuba, um dos índices mais confiáveis da saúde
de uma nação, é de 4,8 por mil nascidos vivos – comparável com a da
Grã-Bretanha e menor do que a dos EUA. Apenas 5% dos bebês nascem com baixo peso ao nascer, um fator crucial para a saúde a longo
prazo, enquanto a mortalidade materna é a mais baixa da América Latina. É o que
mostram os números da Organização Mundial de Saúde.
Existem
atualmente 8.281 alunos de mais de 30 países matriculados na ELAM.
O
governo cubano espera transmitir um senso de responsabilidade social para os
alunos, na esperança de que eles vão trabalhar dentro de suas próprias
comunidades pobres, pelo menos por cinco anos, como sanitarista e objetivando a
prevenção de doenças.
Damien
Joel Soares, 27 anos, estudante de segundo ano de New Jersey/EUA, é um dos 171
estudantes norte-americanos na ELAM; 47 já se formaram. Ele rejeita as alegações de que
a ELAM é parte da máquina de propaganda cubana. E se fosse, qual seria o problema?
“É claro que Che é um herói, mas aqui isso não é
forçado garganta abaixo” – diz o
estudante americano.
Outros
49.000 alunos estão matriculados no “Novo Programa de Formação de Médicos
Latino-americanos”, a ideia de Fidel Castro e Hugo Chávez, que prometeram em 2005
formar 100 mil médicos para o continente. O curso é muito mais prático, e os
críticos questionam a qualidade da formação.
O
professor Kirk discorda: “A abordagem "high-tech" para as necessidades
de saúde em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro
Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a
qualidade, mas se você está vivendo em algum lugar sem médicos, ficaria muito
feliz quando chegasse algum.”
Há
milhões de brasileiros que certamente concordam com o professor canadense.
N.L.: CONTINUA AMANHÃ