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sábado, 12 de fevereiro de 2011

PROPOSTA INDECOROSA

Era um bom rapaz, tinha um bom emprego e estava noivo de uma lourinha linda, cinematográfica, típica de filme francês. Um rosto de menina em corpo de mulher que exalava sensualidade e lascívia. Esse quê que fascina os homens.
Filha de família pobre, pai protestante linha-dura que a educou segundo os mais rígidos preceitos morais e religiosos, ela jamais permitiu qualquer liberdade além do beijo na boca. “Somente depois que a gente casar”, dizia ela sempre que o noivo tentava algo mais.
Apaixonadíssimo, Aurélio – o noivo e primeiro namorado de Débora – não suportava mais aquele namoro dentro de casa e controlado pelos pais. Beijo somente quando se despediam no portão às 22 horas. Nunca além disso.
Decidiu marcar logo o casamento. Dentro de três meses se casariam no civil e na igreja que a família frequentava.
Débora, feliz da vida, partiu para a compra do enxoval. Aurélio alugou apartamento no Bairro de Fátima e mobiliou-o com tudo que tinha direito. Endividou-se. Ficou na pior, não lhe sobrava mais nada da poupança e quase nada do salário. Mas, orgulhoso, pôde mostrar aos futuros sogros o que tinha preparado com muito sacrifício e amor para a vida conjugal.
Faltavam apenas quinze dias para o matrimônio quando o pai da noiva, enfim, permitiu, pela primeira vez, que ela fosse ao cinema sozinha com Aurélio.
Débora foi encontrar-se com o noivo em seu local de trabalho. Era o gabinete avançado de um senador fluminense, um coroa riquíssimo proprietário de fazendas e inúmeras cabeças de gado, grande exportador de carne para a China. Aurélio estava nomeado no gabinete em Brasília e prestava serviços no Rio.
Quando a viu, o senador ficou maravilhado pela lourinha. Ensandecido, chamou Aurélio em sua ampla sala e, a sós, entre as bandeiras do Rio de Janeiro e do Brasil, fez a proposta indecorosa.
Qual um calígula caboclo, o senador exigiu transar com Débora na véspera do casamento. Em troca, pagaria todas as dívidas de Aurélio e lhe daria um milhão de reais. Caso contrário, iria demiti-lo do cargo em comissão no Senado.
A proposta era indecorosa mas abalou o caráter de Aurélio. Disse que jamais conseguiria convencer Débora a aceitá-la. “Vocês não vão ao cinema? Leve-a para ver “Proposta Indecente” com Robert Redford e Demi Moore que está passando no Odeon” – sugeriu o descarado político – “veja o que ela acha do filme e tente convencê-la. Será que ela vai recusar um milhão?”
Perturbado, Aurélio pegou a noiva e foram ao cinema.
“O que achou do filme?” - perguntou-lhe no ônibus de volta para casa – “você toparia?”
“Não sei, não sei” - respondeu Débora – “um milhão de dólares só por uma noite. É dinheiro para toda a vida”.
- “E por um milhão de reais?”
- “Por que pergunta?”
Aurélio contou a proposta do pornográfico senador. Débora fez um escândalo no ônibus. Aos berros chamava-o de canalha. "Canalha, canalha". Mandou o motorista parar, saltou e já na rua gritava: “Não caso mais contigo, canalha”.
Uma semana depois, Débora aparece no gabinete do senador imoral. “Aurélio não trabalha mais aqui, foi demitido”, disse-lhe a recepcionista.
- “Quero falar é com o senador”. E foi entrando, invadiu a sala dele e determinada perguntou-lhe: “A proposta ainda está de pé?”
Surpreso, o senador – como todo político espertalhão – usou de um artifício para baixar a proposta. “Não, não está. A proposta foi de um milhão na véspera do casamento” – disse com cinismo – “você não vai mais casar. Agora, eu ofereço apenas quinhentos mil.”
Débora apenas esboçou um sorriso e disse: “Eu topo”.

10 comentários:

Anônimo disse...

Não sou Débora, nem Janete, não ando de mobilete e não faço...

Vando Barboza disse...

Olá Lacerda,
Procurei o texto que me indicou e não achei. Pode me passar o link?
Abçs,

LACERDA disse...

Vando,

No arquivo do blog, abra o ano de 2010. Agora, abra o mês de setembro. A postagem EDUCAÇÃO... SAÚDE... SEGURANÇA é logo a segunda.
O link é http://muriqui-lacerda.blogspot.com/2010/09/saude-educacao-seguranca.html

leila castro disse...

Lacerda,
Parece até Nelson Rodrigues!

Vando Barboza disse...

Agora sim.
De fato. Concordo com o que disse. E, fica patente, nosso problema não é necessariamente o Estado, mas nós mesmos que, em tudo, nos tornamos dependentes de um Estado repressor. Falta-nos cidadãos.
O próprio Poder não admite a cidadania. Vide a perseguição que fazem aos blogs aqui ou em Angra.
Abçs,

LACERDA disse...

Leila,

Você sabe que o Nelson é meu ídolo, junto com o Jorge Amado.
Tento imitá-los sempre. Já postei outras estórias que criei imitando "A vida como ela é".
Essa foi mais uma e não será a última.

LACERDA disse...

Vando,

Fico feliz em ver que você pensa como eu.
Quanto à perseguição, jamais tive o prazer e a honra de me sentir perseguido.
Gostaria muito de ser.

Vando Barboza disse...

Aqui não, mas em Angra os bRogs são citados por uma veredadora (aquela que esteve presa...) a fim de calá-los, diretamente da Tribuna da Câmara Legislativa. Inclusive já houve tentativa de ir à justiça. Foi o juiz que não aceitou, se não me engando. O tal mal falado blog é esse: www.transparenciaangra.blogspot.com e realiza um trabalho primoroso.
Abçs,

leila castro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
leila castro disse...

Eu gosto! Você sabe disto.
Tenho um irmão que pensa que textos de Nelson Rodrigues são para serem vividos, eu já penso que Nelson é para ser atirado na cara da gente.


Estou novamente sem óculos...retirei por isto o comentários anterior...

desculpem os erros