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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

19 DE OUTUBRO

Parece que foi ontem. Mas o ano foi 1972. Era a fase áurea dita mais dura da maldita ditadura. A tortura, a censura, a cana-dura, a amargura, a desventura, a impostura, imperavam.
Era uma loucura o medo da viatura.
Época dos seqüestros de embaixadores para libertar quem não se submeteu à tirania dos generais.
O ex-Gabeira ainda era o Gabeira. O Serra – o jovem fariseu que havia fugido logo nos primeiros dias - vivia no exterior com uma chilena que abortava e matava criancinha. Enquanto a Dilma era torturada nos porões militares. Ela e tantos outros jovens que ficaram para lutar sem medo pela democracia.
Não se escrevia nem se podia falar o que se pensava. A verdade era apenas o ponto de vista dos ditadores. O medo sobrepujava a esperança que já se esvaia. A tristeza invadia até mesmo o carnaval de rua que já chegava ao fim. O luar daquela e de tantas outras primaveras não brilhava mais como antes para inspirar poetas e compositores.
A liberdade restringiu-se somente à liberdade sexual proporcionada pela pílula. Ali teve início a expansão demográfica para criar operários servis e soldados dominadores.
E meu filho nascia naquele 19 de outubro. A alegria ainda tentou espantar minha tristeza, mas eu não via probabilidade de mudança. O arrocho salarial oprimia o trabalhador. Cheguei a pedir que minha mulher se demitisse da Caixa Econômica Federal onde ela recebia pouco mais de um salário mínimo mensal. A curto e médio prazo, tudo tendia a piorar. Meu filho cresceria em ambiente de terror e, talvez, sem o pai para tirar o medo.
Desesperançado, o que poderia eu fazer?
Resolvi fazer um samba. Um samba bem dolente, quase uma súplica àquele que eu via nascer e que ontem o cantou pra mim.
“Cresça meu filho...
Meu filho cresça depressa
Antes que o mundo despeça
Tanta poesia que vai chegando ao fim.
Cresça meu filho, antes que termine a festa...
A vida mostra que somente resta
Pouco de bom e muito de ruim.
Venha ver o último raio de lua,
O último bloco de rua
No último dia de carnaval.
E a passista, em noite de gala,
Com o último dos mestres-sala
Sambar pro povo da geral.
Vem ouvir o último homem sensato
Dizer a verdade de fato
Colhida em tênue lembrança
De um sonho real.
Vem sentir a última, intensa e profana,
Dolente paixão suburbana
Da derradeira virgem total."

Um comentário:

leila castro disse...

Este é o Lacerda!

Foram postagens como esta, que me levaram a fazer de seu blog, o complemento de meu café da manhã.

Sem meu café, não raciocino. Sem seu blog, não consigo ler jornais, pois estes, já não me fazem sentir as notícias.