Total de visualizações de página

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A COMISSÃO DA VERDADE

Dilma está instalando agora a Comissão da Verdade com sete nomes de alto gabarito - Rosa Maria Cardoso da Cunha, advogada de Dilma durante a ditadura; José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça; Gilson Dipp, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ); Claudio Fonteles, ex-procurador-geral da República; Paulo Sérgio Pinheiro, advogado e ex-secretário de Direitos Humanos; Maria Rita Kehl, psicanalista e escritora; e José Paulo Cavalcanti Filho, advogado e escritor - para investigar os crimes cometidos pela ditadura militar.
O evento contou com a presença de parentes dos desaparecidos políticos, dos três comandantes das Forças Armadas e dos quatro últimos ex-presidentes da República.
A Comissão chega com grande atraso em relação à Argentina e ao Chile que a instalaram logo após o início do processo democrático.
Os elementos saudosos da ditadura, os torturadores ainda vivos e os inocentes úteis, todos se revoltam e querem exigir investigações também sobre o que eles consideram crimes cometidos por aqueles que julgam terem sido terroristas.
Em resposta a estes portadores de condutopatia crônica, o Rodrigo Viana – no blog O Escrevinhador – escreveu um excelente e irretocável artigo com o qual concordo plenamente e reproduzo a seguir.

Investigar “outro lado” na ditadura: seria igualar nazistas à Resistência Francesa
publicada quarta-feira, 16/05/2012 às 11:18 e atualizada quarta-feira, 16/05/2012 às 11:36

por Rodrigo Vianna

Raymond Aubrac morreu no mês passado. Tinha 97 anos, viúvo. Na França, era tratado como herói. Lutou de armas na mão contra os nazistas e contra os franceses colaboracionistas que aceitaram manter um regime fantoche em apoio a Hitler.
Aubrac e a mulher, morta há uma década, foram líderes da Resistência Francesa. Se morassem no Brasil, parte dos comentaristas e colunistas da direita brazuca certamente diriam que eles tinham sido ”terroristas”.
Sim, Aubrac lançou bombas, deu tiros. Foi preso, escapou milagrosamente dos nazistas. Tinha inimigos. E lutou. E não deixou de lutar. Depois da Guerra, tornou-se amigo de Ho-Chi-Min. E na última campanha eleitoral, declarou apoio a Hollande, do Partido Socialista. Ele tinha um lado.
Um homem precisa ser “neutro” pra lutar por Justiça? Tolice. Mais que tolice. Argumento falacioso a proteger criminosos de guerra. Seja na Europa ou na América do Sul. Aqui, às vezes cola. Lá, não cola…
No Brasil, Aubrac e a mulher talvez fossem chamados de “petralhas”. Mais que isso. Talvez aparecesse um ex-ministro tucano dizendo que “os dois lados” precisam ser investigados.
Sim! Não é justo julgar (ou relatar os crimes, que seja) apenas dos pobres nazistas. E as “vítimas inocentes” do “outro lado”? Essa Resistência Francesa era “criminosa”…
Aubrac seria exercrado, ofendido. Pela internet, circulariam e-mails idiotas chamando o sujeito de “terrorista”, talvez achassem uma foto dele com fuzil pra dizer: olha só, o “outro lado” era adepto da força bruta, não era bonzinho, também precisa ser investigado…
Isso me lembra o título daquele livro: “Falta Alguém em Nuremberg!”
Sim, para a direita brasileira (e os apavorados que se acham de esquerda e têm medo de enfrentá-la) seria preciso enviar a Resistência Francesa a julgamento. Afinal, a Resistência pegou em armas, cometeu “crimes”.
No Brasil, por hora, nem se fala em julgamento. Mas numa simples Comissão a relatar os crimes cometidos por agentes do Estado. Crimes contra a Humanidade.
Não se fala em execrar soldados, sargentos ou oficiais que, eventualmente, tenham matado guerrilheiros em combate. Da mesma forma, nunca ninguém se atreveu a “condenar” soldados alemães que lutaram nas trincheiras ou nas ruas.
O que se pretende é relatar crimes de tortura, desaparecimento, assassinatos cometidos a sangue frio…
Ah, mas estávamos numa “guerra”, dizem militares brasileiros (secundados por civis perversos, e até por gente de boa fé mas desinformada) que atacam a Comissão.
Há controvérsias se aquilo que ocorreu no Brasil foi uma “guerra”…
De todo jeito, na Europa houve “guerra”. Pra valer. Nem por isso, crimes contra a Humanidade deixaram de ser julgados. Nazistas e seus colaboradores que torturaram, assassinaram e incineraram gente indefesa foram a julgamento. A Resistência Francesa não foi a julgamento. Nem irá.
O resto é invenção do conservadorismo mais matreiro do mundo, porque dissimulado: o conservadorismo brasileiro. Nesse debate sobre a Comissão da Verdade, é preciso derrotá-lo. Com inteligência, moderação. Mas com firmeza.

Perfeito, irretocável, gostaria de ter escrito.

4 comentários:

Fábio Ribeiro Corrêa disse...

Muito bom o texto do Rodrigo: limpo e objetivo. A blogosfera e principalmente os blogs sujos são um terreno rico em bons jornalistas e bons redatores. Nada daqueles textos idiotas e cheios de erros e sofismas dos jornais televisivos que enervam a gente. Quem aguenta Joelmir Beting lendo asneiras no teleprompt igual um robô?

leila castro disse...

Excelente!

Fábio Ribeiro Corrêa disse...

Por que não tem o Conversa Afiada aí ao lado?

LACERDA disse...

Gosto dele, mas não do jeito que ele escreve.
Apesar disso, e atendendo aos seus insistentes pedidos, estou colocando o link para o Conversa Afiada.