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domingo, 5 de julho de 2009

FREI CHICO E A TORTURA


Acabei de ler “Lula, o Filho do Brasil”, um livro com mais de 520 páginas, bem grosso como os livros que eu gosto. Nele, a autora – Denise Paraná – reproduz as entrevistas que fez com Lula – antes que se tornasse presidente – seus irmãos, parentes e amigos. O livro foi roteirizado para um projeto internacional de cinema e televisão. Como disse Antônio Cândido na apresentação, o livro é um panorama do comportamento e dos sentimentos das classes oprimidas.
Entre os diversos depoimentos, destaco o de Frei Chico, o irmão mais conscientizado politicamente e que nunca foi padre. Frei é apenas um apelido devido a sua careca.
“A nossa prisão foi um negócio em que todo mundo caiu. Todo mundo. Se você era amigo de alguém, você era preso também. Aconteceu muito disso. Pegavam, levavam o cara lá para o DOI-CODI; o cara era feirante que coincidentemente era vizinho de um comunista. Isso foi nos desmoralizando, porque prendiam todo mundo.
O ridículo de tudo isso é que os caras torturavam mesmo. Torturavam mulheres. Mulher perante homem (...) Pegavam e torturavam a mulher perante o marido. Mandavam vir um cara colocar a vassoura na vagina da mulher. Isso nós assistimos. O cara estuprava com objetos. Tinha um bastão elétrico. Enfiava o bstão na mulher, na frente do marido.
Desmoralizavam as pessoas, o negócio era desmoralizar as pessoas. Não era chegar ao ponto de matar. A morte do Herzog foi um acidente de trabalho deles. Foi pancada errada que eles deram e mataram o rapaz. Mas eles tentavam destruir você como ser humano. Esse era o objetivo.
A cadeira do dragão era como essa aqui, com braços, onde estou sentado. Eles amarram seus braços nos braços da cadeira e suas pernas aqui, nas pernas da cadeira, e colocam um pau no meio, entre os pés da cadeira. Aí, eles te aleijam as tuas mãos com pancadas. Usam cassetete, palmatória. E um pau... Eles dão pancadas na mão, de um jeito que ela fica toda inchada. Dão pancada na sola dos pés também. Às vezes quebram alguns dedos, mas não é p´ra quebrar, não. É bem científica a coisa deles. Você fica de um jeito que você não pode pegar um maço de cigarros. Você não consegue dobrar, movimentar a mão. Ela fica completamente dura. Você só pega as coisas juntando uma mão na outra. Com o pé, você não consegue andar. Fica tudo inchado debaixo dos pés. Isso te aleija, e pronto. Você fica aleijado por um bom tempo. Isso eles fizeram com todos que passaram por ali. Não se salvou ninguém.
(...) Tinha uma menina lá que era arquiteta, ela era sobrinha do D`Ávila Mello (NL: Ednardo d´Ávila Mello, general-comandante do II Exército). Eu lembro dessa menina arquiteta – não só ela, mas outras foram presas – eu lembro que torturavam p´ra diabo, mesmo ela sendo sobrinha, parente do cara. Ele não estava nem aí (...)
E o vandalismo dos caras... Um cara tortura você, aí ficam dois olhando, ficam três olhando. E um médico que vem, tira a sua pressão para ver como é que você está. Se reage, se não reage. Se vai continuar.
(...) Os caras da PM eram soldados jovens ainda. Na época, com 20, 22 anos, se sujeitaram a ficar ali dando porrada na gente em troca de um salário extrazinho, em troca de alguma ajuda econômica extra. Tinha um adicional.
(...) Eles tiravam todos os presos da cela (...) e levavam para uma sala de aula com cadeira de escola. E chegava lá, o que faziam? Você botava um saco plástico na cara com um calor insuportável – tinha velhinho assim de 70 anos, ali não tinha idade, não tinha nada – e ficava ali. Sentado e com o saco plástico na cara, sem dormir.
Além disso, tinha um crioulo jovem que ficava a noite inteira batendo. Não deixava ninguém cochilar. Cochilava e ele dava uma porrada. Era p´ra não deixar ninguém cochilar.
Tinha um japonês que era coronel, capitão, tenente, não sei o que é que ele era, só sei que ele era do Exército. Esse japonês fazia a parte escrita do depoimento (...) era um depoimento que você fazia mas com o cara dizendo o que deveria escrever. Era esse japonês canalha. Você ia dizer alguma coisa e ele falava: “Tá errado”. Aí, depois, quando chegava na Justiça Militar, você tinha que desmentir aquilo.
Chegou na Justiça Militar e eu tive que desmentir tudo o que eu tinha dito para eles. Disse diferente. Mas eu reconheci o “Frei Chico” como apelido. Aí o juiz, um tal de Nelsinho, que até hoje está por aí, ele dizia que eu então reconhecia que o meu codinome de partido era Frei Chico. Ele disse que então estava certo o meu depoimento no DOI-CODI.
(...) Não faz sentido dizer que eu fui menos torturado porque eu era irmão do Lula, não tem nada a ver. Durante dois dias fizeram isso direto: ficaram me interrogando para saber da ligação do Lula com o “partidão”. Era uma forma para tentar incriminar o Lula. Mas não teve jeito.
(...) Detalhes da tortura, por exemplo. Além deles aleijarem você nos pés e nas mãos, eles davam choques. Eles davam um banho d´água em você, metiam sal na sua boca, você era amarrado e eles davam choque. E no pênis, então? Adoravam dar choque no pênis.
(...) No período em que você está sendo torturado dá vontade de se matar. Se você tiver chance, você se mata. É por isso que eles deixavam a gente sem cinto, sem nada. Não podia usar cadarço no sapato. Qualquer coisa que pudesse se tranformar em corda, eles não deixavam. Coisa cortante nem pensar. Teve mais gente que morreu lá. Mas não foi suicídio. Não tinha condições de ninguém se suicidar.
Quando dizem que o Herzog se matou, é uma grande sacanagem.”

Essa é apenas uma parte da entrevista com o tranquilo Frei Chico, exemplo de comunista que não come criancinhas e grande responsável por cooptar Lula para a luta de classes em defesa dos metalúrgicos do ABC de São Paulo.

6 comentários:

Anônimo disse...

drgdfgdfgdfgdf

Anônimo disse...

Os torturadores estão ficando velhos. Se não forem julgados já, não vai mais dar tempo. Ficarão velhos, igual o assassino Pinochet, que a cada investida do juiz simulava doença e sentava na cadeira de rodas. Esses PM's que torturavam por uma gorjeta devem estar por aí atirando no povo nas incursões nas áreas de pobreza.
Essa brandura dos governos com a violência policial/militar do passado esta contribuindo para a violência policial do presente, num país que tem a polícia mais despreparada do mundo para intervir na sociedade civil.

Vanderlei disse...

É esse PAÍS só vai ter a demogracia que merece qd passarmos a limpo td q aconteceu durante o regime militar, pena q os grandes FDPs desse regime já morreram.

Vanderlei disse...

É esse PAÍS só vai ter a democracia que merece qd passarmos a limpo td q aconteceu durante o regime militar, pena q os grandes FDPs desse regime já morreram.

Anônimo disse...

Amigo frei Chico o Álvaro de Sâo Caetano é pré candidato a Prefeito de Catalão-Go pelo PT e está te convidando para a inauguração da sede do Diretório Municipal do PT da Cidade no dia 16/03/2012 às 19:00hs e está contando com sua presença favor confirmar presença pelo e-mail contato@hhjcom.br para vermos passagem e outras despesas.

Eurio Sidou disse...

Tambm acho que tem que passar a limpo´o que ocorreu e o que está ocorrendo agora. Né não?